terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

P'ra já tens-te a ti


As costas doem-te por causa do teu próprio peso. 
As pernas marcam o ritmo até a música acabar, que acaba quando o teu dedo clica no botão.
Pousas a caneta, arrumas os papéis e respiras fundo.
Mais um que foi.
A cama é sempre a mesma e fica bem com o teu tom de pele.
Ajeitas a almofada ao teu gosto. 
Apagas a luz.
Viras-te duas, cinco vezes. Encontras a tua posição.
Sorris, trauteias aquela música, projectas o teu dia, relembras, choras para dentro ou apagas, simplesmente. Às vezes é fácil adormecer.
Já não há beijinho de boa noite, estórias ou medos. Já não há ninguém a quem obedecer.
P'ra já tens te a ti e, quanto ao frio, vestes mais uma camisola.
Sonhas com lagos gelados, em filtro azul hipotérmico. Querias sonhar com praia, ir à California e voltar antes de carregares no snooze, devido a um atraso no voo.
Acordas em sobressalto porque te puxaste do limbo, sem saber muito bem como. 
Arrastas-te para o banho, dormes mais um pouco ao jeito In Utero, até que emerges ou te atrasas.
Empurras a torrada com o galão e empurras-te para a rua. Está frio mas a corrida para o autocarro aquece-te a alma, que se aquece com tão pouco e a quem chamas garganta.
Tosses a alma para cima de alguém, sentas-te nos bancos do fundo à janela e pensas na Tracey. Fragmentas-te enquanto olhas, sem que observes, porque é sobre ti.
O dia começa com uma piada. Bracejas e depois concluis com um ar pensativo. 
Reúnes em ti tanto de sério como de circo. Acendes, expiras, apagas. 1, 3, 5...
Pões os óculos e estás em todo o lado, apesar de continuares ali. Focas-te. 
Adrenalina, estalidos, cut, trim, export, acção, firma, corta. 
Pões os óculos, agora de lentes escuras, faço sol ou faça chuva. 
Ar! 
Sentas-te em um qualquer lugar. Só queres chegar.
Irias para vários destinos, mas tens obrigações para contigo mesma, inventadas por não sei quem aka senso comum.
Por vezes escapas e vais a uns sítios, ver coisas que já viste, pensar em assuntos gastos.
O shuffle interrompe-te com algo que te lembra não sei o quê e,
P'ra já tens te a ti. 
Amanhã logo se vê.

domingo, 3 de fevereiro de 2013

At Sea



At sea there's always tomorrowThere are ways to be free, we'll work it out. Electrelane, At Sea

Há terra a vista. Há mesmo terra à vista. E é um ilhéu, perfeito para começar. Já não se trata de colonizar, os tratados ficam para mais tarde.Descobri o Brasil, sabendo já da sua existência mas não do seu paradeiro. Senti-me em casa, e casa é um qualquer lugar. 
Chegar-se a bom porto.Chegar.Chega-me. 
Entre o agora e o depois, o novo sufoco e uma boa ânsia que tardaram, mas apareceram à tona, que me tiraram do fundo do mar, para onde só quero voltar contigo.E se fosse verão, íamos nadar, porque o ilhéu é bem mais perto de onde quer que estejamos do que daqui. 
O meu batimento cardíaco alinhou-se por osmose e agora o meu sangue pulsa de outra forma. Está quente, quente, quente, frio. De ti provém um calor que já nada me pode dar.
Esqueço-me de tudo ao toque. É um calafrio que se materializa em lágrima salgada e sorriso rasgado.
Sao mares de amores onde ainda tenho pé. Avanço até me perder.Sei flutuar em ti.